quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Um setembro qualquer

Ela me ligou dizendo que eu poderia escolher o que eu quisesse como presente de aniversário. Eu pedi um dinossauro. Com uma voz rouca e quase sensual ela disse que não era esse o espírito da coisa. Muitos aniversários depois eu ainda lembro daquela ligação. Se eu tivesse ganho aquele dinossauro provavelmente hoje eu não teria problemas com os cães da minha rua, eu teria uma condução para ir ao trabalho, ninguém mais roubaria minhas roupas do varal, talvez até me ajudasse a ter algum sucesso com as garotas. Ela ofereceu sexo, eu quis um dinossauro, acabei ganhando uma barra de chocolate meio amargo. Nem sempre se tem tudo o que se quer. Foi isso o que aprendi com aniversários.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Clube dos Perdedores

"...talvez até algo que trouxesse alguma mudança substancial no curso da humanidade. Afinal eu tinha o poder de congelar mil infernos, poderia ter feito algo realmente grande. Mas não. Eu fui jogar taco. Ah diabos quem se importa com a humanidade quando se pode dar boas tacadas?

sábado, 17 de julho de 2010

Clube dos Perdedores

Maria Clea. Perdi metade da minha coleção de figurinhas do Ping-Pong Pantanal para ela na 3ª série. O pior foi ter dito que eu perdi de propósito porque gostava dela. Desde então eu venho tentando lavar minha honra no jogo e com as mulheres. Ontem à noite eu perdi a Fernanda em um jogo de canastra. Tentei ligar para avisa-la a noite toda, mas só dá na caixa postal.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Meu amigo Frankenstein

Não há vento. Nada faz as árvores acordarem, nem mesmo o orvalho fazendo cócegas ao rolar sob suas folhas em gotas. O céu está limpo e a lua se mostra no ápice de sua luminosidade. De incômodo só esses meus dedos de juntas debilitadas e castigadas pelo frio que ao cair da noite empurra as pessoas para debaixo de suas cobertas e as privam de desfrutar desse espetáculo que é o luar. O encantamento da lua é só para os inquietos notívagos. Então vamos meu amigo, não me olhe com essa cara desolada. Anime-se. Não se preocupe com a falta de amor ou com o excesso de solidão. Ora, beba mais um gole, e esqueça o dia. Saúde a noite. Não me diga que não és digno desse momento. Não, não suspire, deixe-me dizer-lhe uma coisa. Há algo de ruim em todos nós, sempre há o que faz nos envergonharmos de nós mesmos de um modo ou de outro. Todos nós sabemos onde vivem os monstros. Os seus estão do lado de fora. Os meus levo aqui dentro comigo. Mesmo assim buscamos viver a ilusão da felicidade. De certa forma, aberrações à parte, somos iguais. Nesse ideal utópico, esquecemos do que há a nossa volta. Por isso insisto meu velho, beba mais um gole pra aquecer e veja o quanto perdem aqueles que repousam agora para buscar a felicidade amanhã. Eu posso desconhecer teus anseios, e você pode desconsiderar tudo o que eu disse. Mas por favor, não despreze o que há em sua volta. É muito mais do que qualquer um de nós possa merecer. Dentro, todo coração queima. Então, enquanto eu me espremo em meu casaco e aperto meus dedos no fundo dos bolsos, ao menos balance a cabeça e me conte outra história. Finja que me compreende. E eu finjo que todas essas divagações são verdade. Afinal, um pouco de compreensão, calor e fantasia, não são o bastante para fazer um homem sentir-se feliz por uma noite?

terça-feira, 27 de abril de 2010

Cinzento

Estava ali, parada e por entre as sombras ela me olhava. Eu a olhava também, mas via somente um vulto, esperando que fosse alguém. Você sempre pensa que é o rosto de alguém conhecido que dá a forma de um vulto na rua. Não pensa? Da mesma forma que você quer reconhecer todos os pedestres na rua quando se está sentado na janela de um ônibus. E eu fiquei ali tentando encontrar todos os rostos que se encaixavam naquele contorno escuro. Eu estava sendo observado também, mas eu estava visível. Era covardia. E ela fitava a mim tanto quanto eu a ela, mas o que tanto olhava se eu estava à luz? Talvez estivesse esperando um aceno, ou então um daqueles sorrisos que querem dizer a mesma coisa. Ou talvez não estivesse esperando porra nenhuma. Foi o que pensei, virando para o lado. Mas ela ainda estava lá. Eu a sentia olhando. Imóvel. Observando. E no fundo eu sabia que devia ter acenado. Mas eu fiquei cantarolando em palavras mudas uma música que nunca cantei. Afinal, quem acena para vultos ou impressões. Perdi muito naquele dia. Assim como eu sempre penso que perco toda a vez que isso acontece, sempre que eu tento encaixar rostos conhecidos em sombras aleatórias. Como um cego tentando reconhecer a face de uma moeda. Nunca isso foi tão incômodo como naquele dia em que desejei o terrível sol de um dia de verão sobre as sombras daquele entardecer de outono.
E eu sempre coloco a culpa disso tudo na minha falta de visão. Mas naquele dia eu estava de óculos.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A droga da nostalgia

E ouvindo aquele blues eu me lembrei das tardes em que sentava na grama úmida e via o sol se despedindo do dia. Sentia a noite chegando arrepiando meus braços e me fazendo abraçar os joelhos. Tudo era mais simples. Hoje à minha volta só há o concreto e a lógica. Tudo é como tem que ser e isso é lógico. De bom fica esse blues nostálgico em meio a goles de conhaque descendo garganta abaixo feito balas de canhão.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Contando os pingos

Isso é só a chuva vibrando o telhado. Chuva e vento molhando o zinco castigado pelo sol, aliviando o calor do asfalto, dando fôlego a protozoários e bactérias nas poças d’água. Não se preocupe, é só a chuva apodrecendo as antenas no cume das casas. É a natureza dando-nos mais uma chance. É ela lambendo suas próprias feridas. É a chuva e o vento, fazendo cães se encolherem em suas casinhas, obrigando mendigos a recolherem-se a abrigos mais amplos. A chuva tilintando aqui no telhado é a mesma que cai, limpando os vômitos e mijos de finais de noite nas ruas, levando para a correnteza dos cordões de calçadas tocos de cigarro, panfletos de cartomantes e os jornais velhos que estampam nossas desgraças diárias. É a chuva disfarçando a lágrima e borrando a maquiagem pesada no rosto de mulheres descartáveis que vendem prazeres rápidos nas esquinas. Uma prova de dor para sentirem-se vivas. A chuva que bate na janela é a mesma que enferruja os balanços e gangorras nas praças. A mesma chuva aqui e lá. Então relaxe, meu bem. Tente contar os pingos e durma de novo. Enquanto a chuva e o vento lá fora seguem colocando ordem nas coisas, dando-nos a chance de errar tudo outra vez.