segunda-feira, 24 de outubro de 2011
DDA
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Contos e trilhas
No salão do Rei da montanha
A chama de sua tocha desenhava grotescas criaturas de sombra nas paredes à medida que Lucius avançava cambaleando pelo estreito corredor, com seus pulmões suplicando por um ar menos denso e pútrido. A bússola e o que sobrou de sua equipe ficaram para trás e nada o faria voltar. Sentia o desespero a abocanhar-lhe os calcanhares. Então as paredes e o teto se distanciaram e ele sentiu que adentrara em algo semelhante a uma câmara e não mais estava na galeria intrincada de corredores. O ar tornou-se insuportável, suas vísceras se retorceram. A chama minguou, denotando a escassez de oxigênio. A câmara era de uma estrutura e acabamento diferente dos corredores. Era em formato de ponta de lança, e suas paredes, embora enegrecidas pelo mofo e poeira, davam a entender que algum dia já haviam conservado alguma beleza. Na parte mais íngreme e pontiaguda, havia algo que era impossível passar despercebido para qualquer um que adentrasse o pórtico de entrada. Era algo semelhante a um assento gigantesco, ornamentado com uma estrutura bizarra e assustadora, como se o esqueleto de algum monstro escabroso estivesse montado logo à sua frente. Seria aquele “O Trono”? Lucius estava preso aos detalhes e não percebeu que havia algo sentado ali observando-o. Alguns passos a mais e ele contemplou a criatura que já se erguia lentamente. Ele sentiu o sangue descer congelando nuca abaixo. O que se movia em sua direção tinha a altura, os membros inferiores e superiores e o caminhar que lembravam um humano. Mas o pouco que se revelava de sua face estava distante de qualquer humanidade. Lucius quis correr, mas seus joelhos travaram e sentiu como se seus pés tivessem criado raízes prendendo-o ao chão. Quanto mais “aquilo” se aproximava, mais a luz enfraquecia, e o pânico assumia o controle do seu corpo. Ele sentiu o sussurro peçonhento de seu anfitrião penetrar em seus tímpanos como facas afiadas:
- Herdeiro. Sucessão.
Lucius sentiu o sangue fugir-lhe das faces, ele percebeu que, de alguma maneira a luz fugia do ser que se aproximava. Estavam a dois passos um do outro, quando em uma atitude desesperada e insana, ele atirou a tocha na cara da criatura. Ele viu no lampejo da tocha a face enegrecida e putrefata com um arremedo de sorriso demoníaco. Lucius sentiu seus intestinos esvaziarem. Ele queria juntar a tocha do chão e correr, mas o desespero o petrificou. A esperança de que tudo fosse um pesadelo e que logo acordaria se esvaiu quando a mão esquálida e gélida tocou seu pescoço e a chama da tocha cedeu às trevas, que consumiram também sua consciência.
domingo, 24 de abril de 2011
O Último Hendrix
Havia um gosto de despedida naquele conhaque que descia a seco goela abaixo. Escrevia com dificuldade um amontoado de palavras em uma folha sobre a mesa. Ao seu lado aguardavam um revolver com o tambor aberto e uma única bala. Aos seus pés estava Jimi que recebera esse nome por causa do Hendrix. O cão perseguia com os dentes uma pulga que corria pela sua barriga.
Era o fim, e já não havia mais o que escrever. Encarou o revolver e o projétil. Sugestivos. Sabia que tinha apostado alto demais em um jogo perdido, lhe restava soltar as cartas na mesa. Hesitou. Levantou-se e escolheu um vinil a dedo. Escutaria aquelas músicas com o mesmo apreço que um condenado à morte dá ao seu último cigarro. Olhou para Jimi e disse:
- Esse é nosso último Hendrix.
Olhou seu rosto no do banheiro, fragmentado em mil estilhaços. Sua mão não sangrava, mesmo assim enrolou-a com um trapo. Voltou da despensa com uma espécie de gaiola, olhou para o cão tirando suas medidas a olho e atou a gaiola na sua velha moto. Colocou suas poucas roupas em uma mochila. Jogou fora a folha sobre a mesa e com facilidade começou a dar sentido as palavras. Ele derramou sentimentos sobre a folha. Encarou mais uma vez a arma e o projétil. Ainda sugestivos.
Encontrou Jimi na porta com a coleira na boca espanando o chão com o rabo.
- Esse não é um de nossos passeios matinais amigo – disse ele – Mais uma vez fomos golpeados pelo destino e estamos por terra. Só que dessa vez, vou bater a poeira e vou cuspir na cara do destino. Nem que seja sangue, nem que seja a própria vida. Seguirei pelo caminho daqueles que desistiram de se iludir, vou viver flertando com o acaso. Mas estarei por minha conta, parece perigoso, mas pode ser divertido, e você não é obrigado a ir.
O vira lata batia seu rabo ansioso como se em algum código canino afirmasse que seria muito divertido. O homem sorriu, pois percebera que nunca estivera sozinho. O cão seguiu- o quando ele deixou bater a porta atras de si.
O vento da porta fechando fez a folha voar para o mofo debaixo do armário deixando o revolver e o projétil solitário sobre a mesa. Nas caixas de som, ainda se ouvia a guitarra estridente do último Hendrix.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Cálculos
domingo, 5 de dezembro de 2010
Filtro amarelo
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Beethoven
Caminhou até a cozinha, sua respiração embaçava as grossas lentes presas na fina armação de alumínio. Sentia um frio correndo espinha abaixo, abriu a geladeira e nada viu além de garrafas de água. Logo abriu o congelador e apenas vodka havia. Brotou um malicioso sorriso no canto da boca extinguindo a culpa e o medo, pois agora sabia que o único sangue frio naquela noite seria o sangue de Ana recém derramado na sala . Ela que agora mirava o teto com seu olhar petrificado, com a oitava sinfonia de Beethoven ao fundo, coagulando sangue na noite fria sem luar.