segunda-feira, 24 de outubro de 2011

DDA


Então ela disse que as piadas e as minhas “grandes sacadas” eram tão sem graça e ridículas quanto as tiras que eu compartilhava. Na frente de todos ela perguntou se eu não me envergonhava de ser tão debochado e usuário de um sarcasmo tão antiquado quanto perturbador.

Eu botei o dedo na cara dela e inflei o peito com todo o ar da sala, eu não era conhecido apenas por ser um piadista, mas também por retóricas matadoras. Acontece que eu tinha parado de prestar atenção nela quando ela falou “grandes sacadas”. 
Não me lembro quem me disse isso, mas ouvi dizer que tem alguns execícios que ajudam a melhorar o déficit de atenção. Só que toda vez que tento procurar me informar sobre isso na internet eu acabo minhas horas vendo videos de gatos engraçados

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Contos e trilhas

O conto do post anterior dá início a uma série de contos que plubicarei aqui, que são de alguma maneira atrelados a uma trilha sonora. Não tem muito padrão nisso, pode ser apenas alguma sensação que tive ao escuta-las (a grande maioria foi assim) ou simplesmente a melodia que me remeteu à idéia do conto. E eu posso explicar essa relação aqui ou não. Acho que sem um padrão fica mais divertido.

Bem, o conto "No salão do rei da montanha", nasceu de uma música de mesmo nome. A idéia original era bem mais extensa e com mais personagens. Os cellos nervosos do Apocalyptica deram uma roupa nova para In the hall of the mountain King de Edvard Grieg.

No salão do Rei da montanha

A chama de sua tocha desenhava grotescas criaturas de sombra nas paredes à medida que Lucius avançava cambaleando pelo estreito corredor, com seus pulmões suplicando por um ar menos denso e pútrido. A bússola e o que sobrou de sua equipe ficaram para trás e nada o faria voltar. Sentia o desespero a abocanhar-lhe os calcanhares. Então as paredes e o teto se distanciaram e ele sentiu que adentrara em algo semelhante a uma câmara e não mais estava na galeria intrincada de corredores. O ar tornou-se insuportável, suas vísceras se retorceram. A chama minguou, denotando a escassez de oxigênio. A câmara era de uma estrutura e acabamento diferente dos corredores. Era em formato de ponta de lança, e suas paredes, embora enegrecidas pelo mofo e poeira, davam a entender que algum dia já haviam conservado alguma beleza. Na parte mais íngreme e pontiaguda, havia algo que era impossível passar despercebido para qualquer um que adentrasse o pórtico de entrada. Era algo semelhante a um assento gigantesco, ornamentado com uma estrutura bizarra e assustadora, como se o esqueleto de algum monstro escabroso estivesse montado logo à sua frente. Seria aquele “O Trono”? Lucius estava preso aos detalhes e não percebeu que havia algo sentado ali observando-o. Alguns passos a mais e ele contemplou a criatura que já se erguia lentamente. Ele sentiu o sangue descer congelando nuca abaixo. O que se movia em sua direção tinha a altura, os membros inferiores e superiores e o caminhar que lembravam um humano. Mas o pouco que se revelava de sua face estava distante de qualquer humanidade. Lucius quis correr, mas seus joelhos travaram e sentiu como se seus pés tivessem criado raízes prendendo-o ao chão. Quanto mais “aquilo” se aproximava, mais a luz enfraquecia, e o pânico assumia o controle do seu corpo. Ele sentiu o sussurro peçonhento de seu anfitrião penetrar em seus tímpanos como facas afiadas:

- Herdeiro. Sucessão.

Lucius sentiu o sangue fugir-lhe das faces, ele percebeu que, de alguma maneira a luz fugia do ser que se aproximava. Estavam a dois passos um do outro, quando em uma atitude desesperada e insana, ele atirou a tocha na cara da criatura. Ele viu no lampejo da tocha a face enegrecida e putrefata com um arremedo de sorriso demoníaco. Lucius sentiu seus intestinos esvaziarem. Ele queria juntar a tocha do chão e correr, mas o desespero o petrificou. A esperança de que tudo fosse um pesadelo e que logo acordaria se esvaiu quando a mão esquálida e gélida tocou seu pescoço e a chama da tocha cedeu às trevas, que consumiram também sua consciência.

domingo, 24 de abril de 2011

O Último Hendrix

Havia um gosto de despedida naquele conhaque que descia a seco goela abaixo. Escrevia com dificuldade um amontoado de palavras em uma folha sobre a mesa. Ao seu lado aguardavam um revolver com o tambor aberto e uma única bala. Aos seus pés estava Jimi que recebera esse nome por causa do Hendrix. O cão perseguia com os dentes uma pulga que corria pela sua barriga.

Era o fim, e já não havia mais o que escrever. Encarou o revolver e o projétil. Sugestivos. Sabia que tinha apostado alto demais em um jogo perdido, lhe restava soltar as cartas na mesa. Hesitou. Levantou-se e escolheu um vinil a dedo. Escutaria aquelas músicas com o mesmo apreço que um condenado à morte dá ao seu último cigarro. Olhou para Jimi e disse:

- Esse é nosso último Hendrix.

Olhou seu rosto no do banheiro, fragmentado em mil estilhaços. Sua mão não sangrava, mesmo assim enrolou-a com um trapo. Voltou da despensa com uma espécie de gaiola, olhou para o cão tirando suas medidas a olho e atou a gaiola na sua velha moto. Colocou suas poucas roupas em uma mochila. Jogou fora a folha sobre a mesa e com facilidade começou a dar sentido as palavras. Ele derramou sentimentos sobre a folha. Encarou mais uma vez a arma e o projétil. Ainda sugestivos.

Encontrou Jimi na porta com a coleira na boca espanando o chão com o rabo.

- Esse não é um de nossos passeios matinais amigo – disse ele – Mais uma vez fomos golpeados pelo destino e estamos por terra. Só que dessa vez, vou bater a poeira e vou cuspir na cara do destino. Nem que seja sangue, nem que seja a própria vida. Seguirei pelo caminho daqueles que desistiram de se iludir, vou viver flertando com o acaso. Mas estarei por minha conta, parece perigoso, mas pode ser divertido, e você não é obrigado a ir.

O vira lata batia seu rabo ansioso como se em algum código canino afirmasse que seria muito divertido. O homem sorriu, pois percebera que nunca estivera sozinho. O cão seguiu- o quando ele deixou bater a porta atras de si.

O vento da porta fechando fez a folha voar para o mofo debaixo do armário deixando o revolver e o projétil solitário sobre a mesa. Nas caixas de som, ainda se ouvia a guitarra estridente do último Hendrix.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Cálculos

Caio contou no tambor, três projéteis.
Sete homens o cercavam.
Suspirou.
Em toda a sua vida a matemática nunca esteve a seu favor.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Filtro amarelo

Sempre tive problemas com garçons. Quando possível eu fazia o pedido antes de sentar à mesa. Nada contra eles, mas é que sou um tipo discreto e eles geralmente não me enxergam com a mão erguida suplicando ser atendido. Só que desta vez eu tentava chamar a atenção do garçom de uma forma quase apavorada abanando com as duas mãos. Julia precisava de algo forte para beber. Estávamos há quase um minuto em silêncio. Desconfortáveis. Então ela me encarou com aqueles olhos de mulher durona que renega as lágrimas, pelo menos até o momento de estar a sós. Tinha os olhos vítreos, com aquele brilho quente prestes a transbordar as pálpebras. Ainda me encarando ela levantou a mão esquerda e estalou os dedos, como mágica apareceu um garçom ao seu lado.
– Dois conhaques sem gelo – Eu pedi.
– Eu só quero um maço de Silk Cut - ela falou em um tom suave sem tirar os olhos embaçados de mim. Logo eu entornava o conhaque e ela soltava fumaça pelas ventas sentindo prazer no leve declínio da pressão sanguínea.
- Quem diria que acabaríamos com conhaque e cigarro baratos? – Julia baforou enquanto uma de suas pálpebras tremia. Tomei mais um gole e estalei os lábios.
– A vida é dura não é? – Eu tinha muito para dizer, mas quando a verdade não faz o menor sentido e os sentimentos são insuficientes para mudar uma situação, é uma boa hora para polir o orgulho. Aquilo foi tudo o que eu pude dizer.
- É dura para alguns e infinitamente amarga para outros. – era um misto de maldição e despedida, ela saiu e deixou meio cigarro boiando no meu copo. Paguei a conta, peguei o maço de cigarros e abandonei o bar tão rápido quanto Julia saiu de cena. Esse era eu fazendo o que sei fazer melhor, afastar-me das pessoas que se dispõem a conviver comigo. Ao quebrar a esquina, encontrei-me com um mendigo empurrando um carrinho de supermercado cheio de papelão, estava imundo e tinha os pés descalços e grossos como cascos. Pediu-me um trocado. Atirei-lhe o maço de cigarros. Eu já estava distante quando ele gritou:
- Valeu irmão. Mas eu não fumo filtro amarelo. – e me jogou o maço de volta .
Eram tempos difíceis aqueles. Merdas aconteciam por todos os lados. Se você não fosse durão, tinha que fingir ser um. Mesmo assim a única coisa que me perturbava era aquele vento quente de final de primavera prenunciando mais um verão infernal. Desejei com todas as forças me teleportar para o Alaska ou para as florestas geladas do Canadá. O máximo que consegui foi voltar ao bar e comprar um isqueiro.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Beethoven

Caminhou até a cozinha, sua respiração embaçava as grossas lentes presas na fina armação de alumínio. Sentia um frio correndo espinha abaixo, abriu a geladeira e nada viu além de garrafas de água. Logo abriu o congelador e apenas vodka havia. Brotou um malicioso sorriso no canto da boca extinguindo a culpa e o medo, pois agora sabia que o único sangue frio naquela noite seria o sangue de Ana recém derramado na sala . Ela que agora mirava o teto com seu olhar petrificado, com a oitava sinfonia de Beethoven ao fundo, coagulando sangue na noite fria sem luar.