Algo faz tique-taque, tique-taque... Como um relógio. Ele deixara de usar relógios há anos e ainda ouve um tique-taque. Pode ser o relógio da cozinha. Lembra-se... Está sem pilhas há meses... Ele deveria estar deitado, expulsando o frio dos pés. Mas tem um tique-taque bem ali, na sua cabeça. Ele não sabe se lamenta o excesso de café durante o dia, ou se lamenta ter esquecido de comprar o vinho que o faz dormir.
Passam os dias, trocam as estações, os anos ficam para trás, e nada muda. Só a falta de sono e o tique-taque continuam os mesmos.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
sábado, 27 de junho de 2009
Notas de um Corsário
Duas gotas de sangue no chão me encaram enquanto algumas outras caem, tingindo minhas botas de um vermelho púrpura.
O horizonte... Só devo encarar agora o horizonte, e nada vai me abater, nem mesmo o sangue que há em minhas mãos. Sangue de muitos homens e mulheres que agora já não lembro se eram bons ou ruins. Na verdade, não quero lembrar de mais nada, porque agora, estou voltando para casa.
Sem querer, desvio o olhar para o chão outra vez. Vejo que as gotas de sangue das botas uniram-se às gotas de sangue do chão, formando uma pequena poça de um vermelho,agora viscoso. A vaga lembrança de seu abraço, de seus olhos claros e de seu sorriso me faz fixar o horizonte.
O horizonte... Só devo encarar o horizonte, porque agora estou voltando para casa, e nada, nada vai me abater. Um vento úmido toca meu rosto, deixando meus olhos marejados. Desperto, movimento meus pés frios e adormecidos. O sangue no chão já não tem mais a minha atenção. O vento torna-se impetuoso, com ares de tempestade.
- Içar velas! - ressoa minha voz por entre mastros, botes e cabines vazias.
Ondas curiosas erguem-se ao meu redor e inclinam-se sobre mim, querendo saber quem é o tripulante condenado e solitário que corre pelo convés, içando velas nos pés de uma tormenta.
Ergo as velas enquanto ainda sinto minhas mãos que já estão tão frias e pálidas quanto meus pés. Parece suicídio? Não é. Eu só penso no seu afago. É desespero.
Por que eu miro o horizonte e só vejo trevas? Porque estou voltando para casa, e nada pode me abater. Sinto a fúria do vento, apontando-me o dedo, como se soubesse dos meus erros. Mantenho-me firme. Eu também me tenho fúria. Na noite passada, a tripulação caiu tomada de assalto. Todos dizimados. Vi a morte caminhando no convés, por entre gritos e lamentos. Ela sorriu para mim, um sorriso de até logo.
Olho para cima e vejo além da tempestade, pequenos raios de sol, fazendo pequenos ferimentos nas negras nuvens. Nasce um sorriso no meu rosto, o mesmo sol que doura as margens de praias brancas, de águas claras e calmas, que queima teu pé quando pisas descalça, que esquenta teu cabelo todas as manhãs quando abres a janela do teu quarto.
Estou gargalhando agora, enquanto ouço passos atrás de mim em meio à tempestade que perde sua força. Sinto a vida se esvair como um punhado de areia de minhas mãos, como uma vela acessa, lutando contra o vento. Sinto alguém do meu lado. Vejo aquele sorriso de até logo. Sinto uma mão em meu ombro. Olho mais uma vez para cima e vejo as turvas nuvens se distanciando dos raios de sol. Meu corpo desfalece, mas ainda estou sorrindo, porque sinto que finalmente estou chegando em casa.
Um navio avariado e solitário desliza por um mar de águas calmas sob um sol forte, com sonhos e anseios tatuados em suas velas rasgadas, com gaivotas disputando um banquete dependurado no timão. Agarro-me com unhas e dentes na nossa despedida, desejando que nossas vidas não se acabem como nas notas de um corsário.
O horizonte... Só devo encarar agora o horizonte, e nada vai me abater, nem mesmo o sangue que há em minhas mãos. Sangue de muitos homens e mulheres que agora já não lembro se eram bons ou ruins. Na verdade, não quero lembrar de mais nada, porque agora, estou voltando para casa.
Sem querer, desvio o olhar para o chão outra vez. Vejo que as gotas de sangue das botas uniram-se às gotas de sangue do chão, formando uma pequena poça de um vermelho,agora viscoso. A vaga lembrança de seu abraço, de seus olhos claros e de seu sorriso me faz fixar o horizonte.
O horizonte... Só devo encarar o horizonte, porque agora estou voltando para casa, e nada, nada vai me abater. Um vento úmido toca meu rosto, deixando meus olhos marejados. Desperto, movimento meus pés frios e adormecidos. O sangue no chão já não tem mais a minha atenção. O vento torna-se impetuoso, com ares de tempestade.
- Içar velas! - ressoa minha voz por entre mastros, botes e cabines vazias.
Ondas curiosas erguem-se ao meu redor e inclinam-se sobre mim, querendo saber quem é o tripulante condenado e solitário que corre pelo convés, içando velas nos pés de uma tormenta.
Ergo as velas enquanto ainda sinto minhas mãos que já estão tão frias e pálidas quanto meus pés. Parece suicídio? Não é. Eu só penso no seu afago. É desespero.
Por que eu miro o horizonte e só vejo trevas? Porque estou voltando para casa, e nada pode me abater. Sinto a fúria do vento, apontando-me o dedo, como se soubesse dos meus erros. Mantenho-me firme. Eu também me tenho fúria. Na noite passada, a tripulação caiu tomada de assalto. Todos dizimados. Vi a morte caminhando no convés, por entre gritos e lamentos. Ela sorriu para mim, um sorriso de até logo.
Olho para cima e vejo além da tempestade, pequenos raios de sol, fazendo pequenos ferimentos nas negras nuvens. Nasce um sorriso no meu rosto, o mesmo sol que doura as margens de praias brancas, de águas claras e calmas, que queima teu pé quando pisas descalça, que esquenta teu cabelo todas as manhãs quando abres a janela do teu quarto.
Estou gargalhando agora, enquanto ouço passos atrás de mim em meio à tempestade que perde sua força. Sinto a vida se esvair como um punhado de areia de minhas mãos, como uma vela acessa, lutando contra o vento. Sinto alguém do meu lado. Vejo aquele sorriso de até logo. Sinto uma mão em meu ombro. Olho mais uma vez para cima e vejo as turvas nuvens se distanciando dos raios de sol. Meu corpo desfalece, mas ainda estou sorrindo, porque sinto que finalmente estou chegando em casa.
Um navio avariado e solitário desliza por um mar de águas calmas sob um sol forte, com sonhos e anseios tatuados em suas velas rasgadas, com gaivotas disputando um banquete dependurado no timão. Agarro-me com unhas e dentes na nossa despedida, desejando que nossas vidas não se acabem como nas notas de um corsário.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
E vagabundeando por ai achei esse depósito de pérolas, A Casa do Snoopy . o pessoal da casa se dedica a traduzir em ordem cronológica as tiras da série Peanuts. Achei interessante este traço do inicio dos anos 50 do Charles Schulz.
Dá uma olhada aqui.

Dá uma olhada aqui.

quarta-feira, 10 de junho de 2009
Mostra de Curtas
ESPAÇO CURTAS
Mostra de curtas de EVER RIBEIRO
SHOW da Banda CLUBE DO IMPROVISO
No Espaço Bellas Artes
Dia 19/06 - 23hs - Fone 3566 1051
Rua Independência 1213, São Leopoldo
R$ 4,00 (antecipado) R$ 6,00 (no local)
Confira as chamadas para o evento aqui.
Eu vou.
Mostra de curtas de EVER RIBEIRO
SHOW da Banda CLUBE DO IMPROVISO
No Espaço Bellas Artes
Dia 19/06 - 23hs - Fone 3566 1051
Rua Independência 1213, São Leopoldo
R$ 4,00 (antecipado) R$ 6,00 (no local)
Confira as chamadas para o evento aqui.
Eu vou.
terça-feira, 9 de junho de 2009
Já há algum tempo atrás a Mardilê (Uma grande amiga e incentivadora) me disse:
- Procure ler e escrever micro contos. Visite a revista eletrônica Veredas. É um grande aprendizado.
Pois eu li, fiz algumas tentativas de escrever e até ousei enviar para a tal revista. E vejam só, estou na edição deste mês. O conto é Beethoven e tu podes conferi-lo aqui.
- Procure ler e escrever micro contos. Visite a revista eletrônica Veredas. É um grande aprendizado.
Pois eu li, fiz algumas tentativas de escrever e até ousei enviar para a tal revista. E vejam só, estou na edição deste mês. O conto é Beethoven e tu podes conferi-lo aqui.
A espera das Gárgulas
Gion estava em queda livre, o vento gelava seu rosto, os olhos lacrimejavam e o chão crescia à sua frente. Encarou o asfalto até o último segundo, então cerrou os dentes com força, quase sangrando seu lábio inferior. E o que parecia uma queda inevitável torna-se um vôo rasante a poucos metros do chão. Ele imprimiu velocidade e logo tomou altura por entre os prédios voando acima das ruas desertas, seus olhos viam o mundo em tons de sépia e as estrelas que outrora eram prateadas pareciam-lhe agora tochas flamejantes, como se cada alma que não habita mais esse mundo tivesse acendido uma vela para iluminar a sua liberdade. Logo começou a ouvir um murmúrio embora não visse ninguém, nem nas ruas e nem nos prédios, poderia ser o barulho do bater de suas asas, mas bater de asas não se parece com grunhidos. Ele planou até o chão e mesmo imóvel continuou ouvindo aquela fala grotesca sussurrada pelo vento no seu ouvido. Foi ai que ele viu Augustine, no topo mais alto, do prédio mais distante, caminhando em cima do parapeito em direção ao nada. Tudo era sépia, menos Augustine que parecia brilhar caminhando de pés descalços como um sonâmbulo na beira de um abismo sem se dar conta que esta estendendo sua mão à morte. Assim que ele a avistou, começou a entender os sussurros que pareciam agora uma oração: “A vida de um, é a eterna solidão de outro. O vôo de um, é a perda das asas para outro, até o dia do grande chamado, até o dia da redenção.”
As palavras se repetiam na sua mente como um mantra satânico. Gion batia suas asas com todas as forças na direção de Augustine, mas ele sentia o peso do mundo em suas costas enquanto ela seguia com passadas largas e lágrimas nos olhos. Ele ainda estava muito distante quando Augustine colocou o pé direito na beira do parapeito e o esquerdo pisou o nada. Ela caiu leve e sem desespero, entregou-se à queda que durou poucos segundos, suas costas encontraram o chão, Gion que pousou logo depois ao seu lado ainda pode escutar seu último suspiro. A pele de Augustine era tão branca quanto o seu vestido, ela encarava X com seus olhos mortificados deitada em um lençol de sangue que se alastrava rapidamente. Seu mundo sépia estava manchado agora com o vermelho púrpura que brotava dela.
O sol perseguia os últimos vestígios de noite que ainda resistiam àquela manhã quando Gion despertou de sobressalto, odiou-se por ter esse sonho há anos e ainda assim acordar assustado, aliás, ele nunca teve outro sonho senão esse. Suspirou com um tom de lamento e permaneceu imóvel. Afinal, é o que compete a uma Gárgula, permanecer imóvel, aguardando petrificado até o dia do grande chamado para reaver tudo o que foi perdido, para viver a sua redenção.
As palavras se repetiam na sua mente como um mantra satânico. Gion batia suas asas com todas as forças na direção de Augustine, mas ele sentia o peso do mundo em suas costas enquanto ela seguia com passadas largas e lágrimas nos olhos. Ele ainda estava muito distante quando Augustine colocou o pé direito na beira do parapeito e o esquerdo pisou o nada. Ela caiu leve e sem desespero, entregou-se à queda que durou poucos segundos, suas costas encontraram o chão, Gion que pousou logo depois ao seu lado ainda pode escutar seu último suspiro. A pele de Augustine era tão branca quanto o seu vestido, ela encarava X com seus olhos mortificados deitada em um lençol de sangue que se alastrava rapidamente. Seu mundo sépia estava manchado agora com o vermelho púrpura que brotava dela.
O sol perseguia os últimos vestígios de noite que ainda resistiam àquela manhã quando Gion despertou de sobressalto, odiou-se por ter esse sonho há anos e ainda assim acordar assustado, aliás, ele nunca teve outro sonho senão esse. Suspirou com um tom de lamento e permaneceu imóvel. Afinal, é o que compete a uma Gárgula, permanecer imóvel, aguardando petrificado até o dia do grande chamado para reaver tudo o que foi perdido, para viver a sua redenção.
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